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ToggleDe Brasília para a toga: quando o caminho muda no meio do percurso
A magistratura nunca foi o plano.
Akira Sasaki queria psicologia. Seu pai disse não.
E foi numa espécie de aposta – provar que conseguia passar num curso difícil – que ele acabou no direito, numa faculdade privada do Distrito Federal.
Nenhum sonho de toga, nenhuma vocação precoce. Pelo contrário: ao se formar, foi direto para a advocacia, integrando um escritório de peso em Brasília, onde ficou por 8 anos.
A virada veio de um lugar que ninguém escolheria.
O pai de Akira sofreu um acidente de trânsito grave e ficou acamado. Foi ali, vendo de perto o peso da instabilidade, que algo mudou:
“Se eu quisesse dar uma estabilidade para a minha família, eu teria que ingressar no serviço público.”
Ele tinha acabado de casar. O acidente aconteceu dois, três meses depois do casamento. A conversa com a esposa foi difícil:
“A gente acabou de casar, mas eu não vejo outra opção depois do que aconteceu com o meu pai.”
Da madrugada à biblioteca: uma rotina construída nos buracos do dia
Akira não tinha o luxo de estudar em tempo integral, porque precisava sustentar a casa enquanto se preparava para os concursos.
A solução foi ocupar as horas que o dia deixava sobrando:
“Eu chegava em casa 8 horas da noite e ficava até 3 horas da manhã estudando. Acordava no outro dia às 10 horas da manhã, mais ou menos. Então, meu estudo era durante a madrugada, porque era o tempo que eu tinha para estudar.”
Em 2011, após cerca de dois anos nessa rotina, ingressou no Tribunal de Justiça do Distrito Federal como analista do judiciário.
Mas o sonho da magistratura ainda não estava no horizonte – ele continuou mirando cargos legislativos, tentando o Senado e a Câmara. Ficou como excedente. Não foi chamado.
Foi então que, trabalhando como assessor de desembargador, algo começou a se formar.
Ele passou quase 5 anos com o desembargador Jair Soares:
“Ele foi inclusive responsável por eu admirar tanto a função, como que ele se dedicava, como que era importante aquele cargo, como era pessoa justa, como que ele podia trazer um benefício para sociedade.”
Aos 34 anos, Akira começou a estudar para a magistratura.
Com foco.
Com método.
Com a consciência de que seria longo.
Não imaginava o quanto.
8 anos, 50 provas, 16 reprovações e uma vitória
Akira não chegou à magistratura pela porta da frente.
Ele entrou pela janela, depois de arranhar os cotovelos em quase cada degrau da escada:
“Eu fiz mais de 50 provas objetivas. Reprovei mais de 16 provas subjetivas e reprovei ao final em uma prova oral que foi o Tribunal de Justiça de Alagoas.”
O caso de Alagoas merece atenção.
Ele já havia passado na subjetiva, já havia chegado à fase oral – a última etapa antes da aprovação. Já se sentia, em alguma medida, magistrado. E foi reprovado.
“Ali eu já me sentia ao tempo como magistrado do Tribunal de Justiça de Alagoas.”
Mas aquela derrota específica carregou uma consequência que ele não esperava: ela o forçou a se preparar de verdade para o TJRJ.
A prova de sentença do Rio tem uma lógica própria – exige rapidez, síntese, raciocínio prático.
Sem a reprovação em Alagoas, ele talvez não tivesse se aprofundado nos entendimentos dos desembargadores do Rio da forma que precisava.
E aí veio a pandemia.
Um mês antes da prova marcada, tudo parou.
Akira estava simultaneamente aprovado para a oral de Rondônia, prestes a fazer a sentença em Alagoas e na subjetiva do Rio de Janeiro. De repente, passou dois anos sem saber quando, ou se, essas provas voltariam.
“Passei praticamente 2 anos estudando para todas as fases sem saber que dia voltaria os concursos.”
Foi nesse período que ele identificou o maior erro da sua trajetória até então: estudar apenas para a fase em que estava.
Cada vez que avançava para uma segunda fase, chegava despreparado.
E voltava para a objetiva, onde era aprovado quase que automaticamente, mas sem a base sólida para o que vinha depois.
A pandemia, paradoxalmente, foi o momento em que ele finalmente construiu essa base completa.
O método: como ele estudou (e o que mudou ao longo do tempo)
Akira não teve um método fixo do primeiro ao último dia.
O que ele teve foi uma progressão – e a honestidade de mudar quando algo não estava funcionando.
1. No início, livros de capa a capa. Ele precisava entender os institutos jurídicos antes de qualquer coisa, e só a doutrina dava isso:
“Criar uma base com livros foi muito importante. […] depois que eu criei essa base, eu verifiquei que não dava para eu ficar lendo de livro capa a capa.”
2. A partir daí, migrou para sinopses – leituras mais condensadas, que permitiam revisão rápida e repetida. Uma sinopse de direito penal, por exemplo, ele chegou a ler oito vezes.
Sabia em qual página estava cada tema.
3. Em paralelo, entrou na lei seca. Não como ponto de partida, mas como consolidação – porque sem a base doutrinária, a leitura direta da lei é vazia.
“Para eu compreender a leitura da lei seca, eu tinha que entender a doutrina. Não adianta a gente pular etapas. “
4. A fase de refino veio quando ele percebeu que estava passando nas objetivas mas travando nas discursivas. A solução foi criar uma rotina diária de todas as fases ao mesmo tempo:
“Vou fazer no mínimo duas questões subjetivas por dia, vou fazer um simulado de 24 questões por dia, era meu dever de casa todo dia.”
Quase desistindo – e quase morrendo…
A pandemia trouxe mais do que incerteza acadêmica.
Akira contraiu Covid-19 com gravidade. Teve 50% do pulmão comprometido. Ficou meses em fisioterapia pulmonar.
“Eu realmente quase faleci na pandemia.”
Na segunda-feira anterior à internação, ele estava fazendo crossfit.
Na sexta-feira, estava no hospital.
Depois de se recuperar, fez uma promessa à família: o concurso do TJDF seria o último.
Não tinha mais condições – físicas, emocionais – de continuar indefinidamente naquele ciclo.
Quando o TJRJ saiu o resultado e ele foi aprovado, o concurso do DF abriu.
Ele fez. Ficou bem colocado na objetiva.
E foi reprovado na segunda fase – não por falta de conhecimento, mas por excesso de demonstração: tentou colocar tudo que sabia em questões que pediam síntese, e deixou três em branco.
Ali, já Juiz do TJRJ, ele se sentiu exatamente como qualquer concurseiro:
“Eu como magistrado nos melhores tribunais do Brasil, me sentindo frustrado, sem capacidade, vamos dizer assim, por ter acabado de ter sido reprovado na segunda fase do Tribunal de Justiça Federal.”
E foi esse sentimento que o fez concluir algo importante: a aprovação não apaga as derrotas.
Ela convive com elas.
E são as derrotas que constroem o magistrado.
“Isso mostra para todo mundo que, na verdade, a gente só precisa de uma vitória”
O que sustentou tudo isso
Quando perguntado sobre o que o manteve de pé durante 8 anos de reprovações, Akira apontou três pilares.
O primeiro foi a família.
O segundo foi o esporte. Akira veio de uma família atlética – o pai foi campeão panamericano de judô. Ele sempre manteve uma rotina física, e o crossfit, especificamente, lhe deu algo além da saúde:
“Quando você faz esporte de alta intensidade, você entende que cada vez mais você tem que se esforçar, isso te dá uma resistência maior.”
O terceiro foi algo que ele só entendeu depois: o TDAH não diagnosticado que carregou a vida inteira o havia treinado, sem que ele soubesse, a ser extremamente constante. Uma psiquiatra explicou:
“Você passou a sua vida inteira dessa forma e por isso você criou uma resistência maior.”
E além de tudo isso, havia um grupo de WhatsApp – seis ou sete colegas que trocavam notas de simulados, brigavam pelas pontuações, marcavam hotéis juntos para as provas.
Todos passaram.
A aprovação e o recado final
Aos 43 anos, Akira Sasaki foi aprovado no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
Entrou como o mais velho da turma – o decano.
E chegou com uma clareza que só quem construiu cada tijolo da própria trajetória consegue ter.
“Eu nunca fui um aluno espetacular. Fui um aluno mediano, mas bem constante.”
E o recado que ele deixa para quem ainda está no meio do caminho:
“Só passa quem não desiste. […] A resiliência é muito mais importante do que o aspecto intelectual. Se você acha que você é muito inteligente ou que você é pouco inteligente, eu passei na frente de muita gente pela minha resistência de cair e levantar novamente.”
Direcionamento Nível Ênfase
Akira é um exemplo de que método, constância e resistência constroem trajetórias que nenhum talento natural constrói sozinho.
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Abraço,
Time Ênfase