A bola está com você: o que um juiz ensina sobre nunca desistir

A bola está com você o que um juiz ensina sobre nunca desistir

A bola está com você: o que um juiz ensina sobre nunca desistir

“Eu nunca vi ninguém que colocou os seus planos, os seus projetos nas mãos de Jesus, e Ele o deixar desamparado.”

“Eu nunca vi ninguém que colocou os seus planos, os seus projetos nas mãos de Jesus, e Ele o deixar desamparado.”

Sou Juiz de Direito no Tribunal de Justiça de São Paulo. Levei anos de preparação, prestei mais de 30 provas e, em menos de 2 anos depois da posse, fui exonerado.

Durante 1 ano e 10 meses, recorri ao CNJ, sem renda, sem cargo e sem saber o que viria.

Até que, em maio de 2022, fui reintegrado – e vitaliciado – em uma decisão sem precedentes na história do Judiciário brasileiro.

 

Retornei à magistratura.

Apesar de ser uma história inesperada, não é sobre ela que falaremos – ela já foi contada neste artigo.

Porque hoje irei contar o que aprendi no tênis – e o que ele tem a ver com a sua aprovação.

Antes de falar sobre carreira, aprovação, magistratura, vocação ou propósito, preciso confessar uma coisa: eu também sou um tenista amador profissional.

Amador, porque ainda estou longe de jogar como gostaria.

Profissional, porque levo o tênis a sério demais para alguém que ainda erra bolas relativamente simples.

Eu amo o esporte.

Acompanho partidas, estudo os golpes, conheço os materiais, observo raquetes, cordas, empunhaduras, movimentação de pernas e estratégias de jogo.

Acontece que existe uma distância imensa entre saber sobre tênis e jogar bem tênis – e talvez essa seja a maior lição que esse esporte me ensinou:

Conhecimento não entra em quadra sozinho.

Guarde essa frase. Vamos voltar a ela.

 

O jogo

No fundo da quadra, um jovem segurava uma raquete azul-marinho com detalhes em vermelho.

Ele enxugava o suor a cada poucos segundos, tentando esconder um nervosismo que já não cabia dentro dele.

Do outro lado da rede, o adversário, que parecia sereno e experiente, aquecia como se aquilo fosse apenas mais um treino.

Para o jovem, porém, não era uma partida qualquer – era uma prova sobre si mesmo.

“E se eu não for bom o suficiente?”
“E se todos perceberem que eu não pertenço a este lugar?”
“E se eu falhar de novo?”

O jogo começou.

No primeiro ponto, tentou uma direita agressiva. A bola explodiu para fora da linha. No segundo, chegou atrasado. No terceiro, dupla falta.

Em poucos minutos, o placar mostrava 4 a 0.

Na troca de lado, sentou-se no banco e olhou discretamente ao redor. Alguns assistiam. Outros mexiam no celular. Mas, para ele, parecia que o mundo inteiro testemunhava seu fracasso.

Foi então que veio o pensamento mais perigoso de todos:

“Talvez eu nunca tenha sido capaz.”

 

A solidão da quadra

E aqui o tênis ensina algo muito peculiar.

Diferentemente dos esportes coletivos, na quadra não há espaço para transferir responsabilidade.

Na derrota, você não pode culpar o goleiro, o zagueiro, o atacante que perdeu o gol feito ou o companheiro que não correu.

No tênis, é você e você.

Foi você quem errou o golpe. Foi você quem chegou atrasado. Foi você quem cometeu a dupla falta. Foi você quem deixou a mente sair da quadra antes do corpo.

Há treinador, torcida, família, amigos, gente que incentiva. Mas, na hora do ponto, ninguém entra em quadra por você. A quadra é sua. A raquete está na sua mão.

E, no concurso, não é diferente.

Você pode ter os melhores cursos, os melhores materiais, o melhor mentor – mas, na hora da prova, é você diante do caderno. É você diante da banca. É você diante de si mesmo.

 

A pergunta do treinador

— Você percebeu que parou de olhar para a bola?

O treinador perguntou, mas o jovem ficou em silêncio.

— O problema não é a sua técnica. Você treinou. Você conhece os golpes. O problema é que a sua mente saiu da quadra antes do seu corpo.

Desde o primeiro erro, ele já não jogava para vencer; jogava apenas com medo de errar de novo.

Muitos candidatos não param de estudar porque perderam a técnica. Param porque perderam a bola de vista, porque o medo de errar passou a comandar o jogo no lugar da vontade de vencer.

Então, naquela troca de lado, algo mudou.

Foi uma decisão silenciosa: continuar.

Na partida seguinte, o jovem correu em busca de uma bola quase impossível. Depois outra. E mais outra. Voltou a colocar a bola em quadra.

 

O paredão

Há uma imagem muito bonita no tênis: o paredão.

Você bate a bola contra a parede, e ela volta. A parede não se impressiona com a sua força, com as suas desculpas, com o seu cansaço ou com a sua autocomiseração.

A bola volta. E volta, muitas vezes, na mesma intensidade com que você bateu.

O paredão responde ao movimento.

E a preparação para o concurso é assim: o edital é o seu paredão.

Ele não pergunta se você está cansado, se a semana foi difícil ou se o trabalho consumiu seu domingo.

Ele apenas devolve a bola – em forma de questão, de prova, de resultado.

Não adianta argumentar com o paredão. Adianta bater de novo.

 

O winner não é o segredo

O ponto mais bonito do tênis, para muitos, pode até ser o winner: aquela bola perfeita e fulminante, que passa pelo adversário sem possibilidade de resposta.

Mas o tênis real não é feito de bolas espetaculares.

A maior parte dos pontos nasce da insistência, da regularidade, da capacidade de colocar mais uma bola em quadra.

Mais uma. E mais uma. E mais uma.

Os grandes jogadores não se tornam grandes porque sempre executam o golpe mais bonito. Tornam-se grandes porque a bola sempre volta.

E isso desespera o outro lado, porque há uma força quase invencível em quem se recusa a abandonar o ponto.

A preparação séria funciona da mesma forma.

Não é o simulado heroico de domingo que aprova ninguém. É a revisão de terça, o ciclo de quarta, a questão de quinta e o resumo de sexta.

É a constância que constrói o resultado.

 

O placar é seu

O que aconteceu depois foi que a mente daquele jovem já não obedecia ao medo.

Agora havia coragem, mesmo em meio ao caos.

E agora talvez você esteja se perguntando: mas, afinal, quanto ficou o jogo?

Pois bem: o tenista é você, e quem define o placar desse jogo é você.

Talvez você esteja aqui porque, em algum momento, escutou o seu treinador – seja ele uma voz ou o seu próprio coração.

Ou porque, apesar do cansaço, ainda exista dentro de você uma centelha dizendo que esse sonho não morreu.

Mas talvez você apenas tenha parado de olhar para a bola.

Parou de olhar para a toga. Parou de olhar para a prova. Parou de olhar para aquela carreira na magistratura que um dia encheu os seus olhos.

Então eu pergunto: como está o jogo hoje?

Está 5 a 2 para você? Ou está 5 a 2 para o adversário?

 

O próximo ponto

É para isso que estamos aqui: para compreender que ainda há bola para ser jogada, há ponto para ser disputado, há jogo para ser construído.

No tênis, ninguém vence a partida inteira de uma vez.

Vence-se ponto a ponto, game a game, golpe a golpe, respiração a respiração.

O placar final é apenas a soma silenciosa daquilo que se faz quando ninguém pode entrar em quadra por você.

Hoje, eu devolvo a caneta à sua mão.

Porque o placar ainda está aberto.

A bola está com você.

E o próximo ponto começa agora.

Senivaldo Júnior é Juiz de Direito no Tribunal de Justiça de São Paulo e autor do livro “Sopro no Vendaval”, que narra a história da sua demissão e reintegração ao Judiciário.

Conheça a sua história na íntegra, contada neste episódio do João Mendes Entrevista.

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