O gosto amargo da derrota Por Senivaldo Jr. Juiz de Direito do TJSP

Entenda como avaliar sua preparação após a prova e identificar ajustes que podem fazer diferença no próximo ciclo.

O gosto amargo da derrota Por Senivaldo Jr. Juiz de Direito do TJSP

Uma derrota nem sempre revela falta de preparo. Muitas vezes, ela expõe dúvidas, ajustes de método ou aspectos da prova que passam despercebidos durante a preparação. Neste artigo, Senivaldo Jr. compartilha uma experiência pessoal para refletir sobre o que fazer quando o resultado não vem e como transformar esse intervalo em aprendizado para o próximo ciclo.

O intervalo entre a prova e o que vem a seguir

Sair de uma prova é um momento estranho. 

Não importa como foi, bem, mal, ou aquela sensação de não saber ao certo. Existe um intervalo entre entregar a prova e saber o que vem a seguir, e é nesse espaço que a maioria das dúvidas aparecem.

Por isso, resolvi contar o que aconteceu comigo recentemente em um campeonato de tênis, e o que me ensinou sobre a preparação.

 

Quando a derrota não tem explicação técnica

Me considero um tenista amador profissional. Amador porque ainda estou longe de jogar como gostaria. Profissional porque levo o esporte a sério demais para alguém que ainda erra bolas relativamente simples.

Recentemente participei de mais um campeonato, e fui eliminado na primeira rodada.

Quem joga tênis sabe o que isso significa: não existe segunda chance naquele dia, nem repescagem. Se ganhou, continua. Se perdeu, acabou. Você recolhe suas coisas, cumprimenta o adversário e sai da quadra carregando aquele gosto amargo que algumas derrotas deixam, especialmente as que doem porque você sabe que poderia ter vencido.

Você perde para si mesmo.

Durante vários momentos da partida, pensamentos que não têm lugar numa quadra tomam conta. “Talvez eu não consiga.” “Talvez eu não seja bom o suficiente.” E quando esses pensamentos entram, você deixa de executar. 

Por isso digo: às vezes, a derrota começa muito antes do último ponto.

E então, quando você chega em casa, vem a pergunta inevitável. Seu filho quer saber se venceu. Sua esposa pergunta como foi. Você responde: “Não venci.” A próxima pergunta é mais difícil ainda: “Estava muito difícil?” E você precisa admitir: não estava. Havia conteúdo, treinamento e preparo. Mas não aconteceu. 

 

O que o ENAM e o tênis têm em comum

Talvez você esteja lendo este texto e reconhecendo algo parecido na sua própria situação. 

Talvez a sua quadra não seja de tênis, mas uma sala onde os pontos que contam não são games e sim questões; onde o adversário não está do outro lado da rede, mas no próprio enunciado; onde o placar que importa tem o nome de ENAM.

Talvez você já tenha feito duas provas, três, quatro. Tenha estudado, renunciado a finais de semana, investido tempo, dinheiro e energia. E, ainda assim, o resultado não veio.

A pergunta que sobra é: agora, o que fazer? Esperar mais um ciclo? Mais uma tentativa? 

Quando o resultado não vem, a tendência é repetir o mesmo ciclo esperando um resultado diferente. Mas quase sempre há algo concreto a corrigir, no método, no volume de revisão, na forma de encarar a prova. 

Identificar o que foi esse “algo” é o ponto de partida para o próximo ciclo fazer sentido.

 

O adversário que entrou na sala antes de você

Foi olhando para minha derrota naquela partida que percebi algo: meu problema não estava na técnica, mas na dúvida. 

A dúvida sobre mim mesmo, entrou em quadra antes de mim e jogou no meu lugar, mal.

A FGV não é intransponível e a prova não é impossível. Muitos candidatos passaram, e parte deles não chegou com mais conteúdo do que você. 

O que os separou, na maioria dos casos, não foi o quanto estudaram, foi o que fizeram com o que sabiam dentro da sala: gerenciar o tempo da prova, manter o ritmo nas questões que dominam e não travar nas que não dominam. 

São variáveis concretas, treináveis, e que fazem diferença no placar final.

 

O diagnóstico antes do próximo ciclo

Antes de iniciar o próximo ciclo, vale uma pergunta direta: o que de fato não funcionou?

Se o problema foi conteúdo, lacunas em matérias específicas, pouco volume de questões, revisão insuficiente, o ajuste é no método de estudo. Mais questões das disciplinas que mais caem, revisão espaçada do que já foi visto, atenção ao que a banca efetivamente cobra.

Se o conteúdo existe mas a prova não saiu como deveria, tempo mal gerenciado, travamento em questões difíceis, ritmo quebrado, o ajuste é outro. Simular condições reais de prova, treinar a gestão de tempo, desenvolver o hábito de avançar quando a questão não sai em vez de perder minutos nela.

Existe uma diferença entre perder uma prova e desistir.

A primeira é um dado, faz parte do processo de qualquer candidato que chegou até aqui com seriedade. A segunda é uma escolha, e raramente precisa ser tomada antes de um diagnóstico honesto sobre o que travou o resultado.

Quem identifica o problema real e ajusta tem chances concretas no próximo ciclo. Quem repete o mesmo ciclo sem revisão tende a repetir o mesmo resultado.

Faça o diagnóstico. Depois volte para a quadra.

Senivaldo Jr. é Juiz de Direito no Tribunal de Justiça de São Paulo. Foi reintegrado à magistratura em 2022 após uma demissão contestada no CNJ, decisão que, além de reintegrá-lo, o vitaliciou no cargo, em um julgamento sem precedentes na história do Judiciário brasileiro. É autor do livro Sopro no Vendaval, que narra esse percurso. Sua história completa está no episódio do João Mendes Entrevista.

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